Utilização do ENVI no Estudo Multitemporal de Imagens Landsat

Utilização do ENVI no estudo multitemporal de imagens Landsat da fragmentação e perda de habitat na região de Novo Progresso, no Sul do Estado do Pará.

 



1 – Introdução

A modificação da paisagem e fragmentação de habitat tem se tornado um dos principais temas da biologia da conservação. Elas são consideradas ameaças severas a biodiversidade global e acredita-se que seus efeitos negativos influenciam diversos grupos taxonômicos – Fischer e Lindenmayer (2007). A destruição do habitat tipicamente leva à fragmentação, a divisão deste em fragmentos menores, isolados e separados por uma matriz de uso e cobertura transformada pelas atividades humanas – Haddad et al (2015).

O processo global de fragmentação de habitats é, possivelmente, a mais profunda alteração causada pelo homem ao meio ambiente. Muitos habitats naturais que eram quase contínuos foram transformados em paisagens semelhantes a um mosaico, composto por manchas isoladas de habitat original. Considerando a fragmentação como a alteração de habitats, o resultado deste processo é a criação, em larga escala, de habitats ruins, ou negativos, para um grande número de espécies – Cerqueira et al (2003).

Este artigo mostra um estudo multitemporal da fragmentação e mudanças no uso da terra, provocados pelo desmatamento ao longo da BR 163, em Novo Progresso – PA.

Palavras-chave: perda de habtat; bioma amazônico e fragmentação.


2 – Fragmentação de Habitats florestais.

A fragmentação florestal e efeitos de borda provindos do desflorestamento têm sido identificados como um dos processos mais deletérios que ocorrem nos trópicos atualmente – Gascon et al (2000) ; Broadbent et al (2008). Dados de satélite em alta resolução espacial revelam que o desflorestamento, o qual já se espalhou amplamente nas regiões temperadas e aumentou nos trópicos desde metade do século passado têm resultado na perda de mais de 1/3 de toda cobertura florestal mundial – Haddad et al (2015).

Nas regiões neotropicais, a ação humana tem também levado ao corte raso de florestas primárias para implantação de projetos de desenvolvimento como agricultura, pecuária e mineração. Por conta disso, as paisagens das regiões neotropicais vêm sofrendo intensa fragmentação com paisagens dominadas por extensas áreas desflorestadas – Laurance et al (2002); Felfili (2003); Broadbent et al (2008); Gazoni (2011).

Tomando-se como exemplo o território Brasileiro, constata-se que aos maiores ganhos de cobertura florestal neste período ocorreram nas regiões sul e sudeste (estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e sul da Bahia); as perdas mais substanciais foram registradas nos estados integrantes da Amazônia Legal.


 3 – Área de estudo

A área selecionada para estre estudo foi a região de Novo Progresso, localizada na parte sul do estado do Pará, ao longo da BR-163, como pode ser observado na figura 1, devido à grande influência antrópica naquela região geográfica.

Figura 1. Região de Novo progresso – PA. (Fonte: Google Maps).


4 – Metodologia Empregada

Foram utilizadas ferramentas de geostatística do ENVI, para o cálculo da progressão das mudanças do uso da terra entre os anos de 1999 a 2015, com base em imagens multitemporais dos sensores Landsat 5, Landsat 7 e Landsat 8, com orbita/ponto: 227/65, conforme figura 2, onde se destaca ao centro a BR-163, ao longo da qual o padrão de ocupação em “espinha de peixe” pode ser observado.

Figura 2. Imagens da área de estudo dos anos 1999, 2003, 2005, 2008, 2010 e 2015, onde o significado das cores é: azul: corpos d’água, verde: vegetação nativa, amarelo: áreas de transição e vermelho: áreas desmatadas.


5 – Resultados e discussões

5.1 Cálculo do desmatamento

Com base na área abrangida pelas imagens, calcularam-se os valores referentes ao percentual de desmatamento (figura 3).

Figura 3. Progressão do desmatamento em dados percentuais.

5.2 Comparação entre extremos

Utilizando as imagens extremas (anos 1999 e 2015), sem o artifício da classificação, pode-se observar claramente a extensão de área desmatada num período de 16 anos, conforme se observa na figura 4, constatando-se um aumento de 5256,96 Km2 de área desmatada nesse período, aproximadamente o tamanho do estado insular de Trinidad e Tobago.

Figura 4. Comparação das áreas desmatadas entre 1999 e 2015.


 6 – Conclusões

As análises mostram que a influência da matriz antrópica na região estudada tem influenciado fortemente o desmatamento ao longo da BR 163, tornando a região de Novo Progresso um dos principais polos de desmatamento da Região Amazônica e que, a partir de 2008, o processo de desmatamento sofreu uma aceleração.

No que tange à Amazônia, com altas taxas de desflorestamento e fragmentação, políticas de prevenção e combate ao desmatamento, teriam maior eficácia se a fiscalização do estado viesse atrelada à melhoria das condições socioeconômicas das populações locais (oferta de trabalho em atividade legalizada, educação, saúde, segurança, água potável, esgoto tratado, energia, etc). Ao contrário disso, a ineficiência do estado nestas questões tem incentivado ainda mais a prática de crimes ambientais nestas regiões.


7 – Referências Bibliográficas

  • Cerqueira, R. et al. (2003). Fragmentação: alguns conceitos. p.24-40. In: Rambaldi, D. M.; Oliveira, D. A. S. (orgs.). Fragmentação De Ecossistemas: Causas, efeitos sobre a biodiversidade e recomendações de políticas públicas. Brasília: MMA/SBF, 2003. ISBN – 87166-48-4. 510 p.
  • Felfili, J. M. (2003). Fragmentos de Florestas Estacionais do Brasil Central: diagnóstico e proposta de corredores ecológicos. p.139-160. In: Costa, R. B. C. (org.). Fragmentação Florestal e Alternativas de Desenvolvimento Rural na Região Centro Oeste. Campo Grande: ed. UCDB, 2003.
  • Fischer, J.; Lindenmayer, D. B. (2007). Landscape modification and habitat fragmentation: a synthesis. Global Ecology and Biogeography, 16, p. 265–280.
  • Gascon, C.; Williamson, B.G.; Fonseca, G.A.B. (2000). Receding forest edges and vanishing reserves. Science 288, p.1356–1358.
  • Gazoni, J. L. (2011). A contribuição relativa das forças primárias do desmatamento na Amazônia. Tese de Doutorado. Centro de Desenvolvimento Sustentável. Universidade de Brasília, Brasília. 229p.
  • Haddad, N. M. et al. (2015). Habitat fragmentation and its lasting impact on Earth’s ecosystems. Sci. Adv. 2015; 1:e1500052, p.1-9.
  • Laurance, w. f. et al. (2002). Ecosystem Decay of Amazonian Forest Fragments: a 22-Year Investigation. Conservation Biology, V.16, n.3, Junho (2002), p.605-618.

por Carlos Alberto Branco Marinho – Dr.

Professor e Especialista em Sensoriamento Remoto

Geo Sem Fronteiras

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